A psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, especialista em saúde mental e relações familiares, observa em suas sessões com pacientes que um dos tópicos mais relevantes é o pertencimento. Nesse sentido, entende-se que pertencer a uma comunidade cumpre uma função psíquica que vai muito além do apoio prático que costuma ser mais visível de fora, como cestas básicas ou ajuda financeira pontual.
Esse pertencimento atua sobre algo bem mais estrutural e profundo: a forma como a pessoa se percebe existindo no mundo, com valor e lugar reconhecidos por outros, independentemente da crise específica que esteja enfrentando naquele momento da vida.
O que o pertencimento oferece psiquicamente?
Do ponto de vista psicanalítico, sentir-se parte de um grupo reduz consideravelmente a sensação de que a própria existência depende inteiramente da própria força individual, mesmo nos piores momentos de crise. Saber que existem outras pessoas dispostas a notar a ausência, perguntar como se está e oferecer companhia genuína sustenta uma segurança básica que antecede qualquer solução prática para o problema em si.
Essa segurança não é abstrata: ela se traduz em menos ativação do sistema de alerta do corpo diante de dificuldades cotidianas, o que, na prática, significa menos ansiedade constante e mais capacidade de pensar com clareza sobre os próprios próximos passos a seguir. Uma pessoa que sabe que pode ligar para alguém de confiança a qualquer hora enfrenta o mesmo problema de forma fisiologicamente diferente de quem se sente completamente sozinha diante dele.
Como o isolamento social se transforma em sofrimento psíquico?
Taiza Tosatt Eleoterio destaca que o isolamento, quando prolongado ao longo de meses ou anos consecutivos, não é apenas uma condição externa e circunstancial, mas passa a ser internalizado como parte da identidade da própria pessoa: ela começa a se ver como alguém sozinho por natureza, não apenas por circunstância temporária que poderia mudar com o tempo.
Esse tipo de crença dificulta ainda mais a busca por ajuda, porque pedir apoio passa a parecer incompatível com a própria imagem que a pessoa construiu de si mesma ao longo de todo o isolamento prolongado que viveu. Ela pode chegar a pensar, silenciosamente, “eu sempre me virei sozinha, por que seria diferente agora”, mesmo quando essa autossuficiência forçada foi mais imposta do que genuinamente escolhida ao longo do tempo.
Por que a comunidade funciona como um “colchão” emocional?
A presença de uma rede comunitária ativa e disponível funciona como um amortecedor entre a pessoa e os impactos de uma crise, reduzindo a intensidade com que cada dificuldade é sentida de forma individual e solitária. Isso não elimina o problema em si, mas distribui parte do peso emocional entre mais pessoas dispostas a compartilhá-lo, o que costuma tornar a travessia de qualquer crise menos exaustiva do ponto de vista psíquico e menos solitária de forma geral.
Taiza Tosatt Eleoterio pondera que esse efeito amortecedor é especialmente relevante em situações de violência doméstica, nas quais o isolamento social costuma ser tanto causa quanto consequência da permanência prolongada na relação abusiva vivida. Quanto mais isolada a mulher permanece, menos vozes externas existem para questionar o que se tornou normal dentro daquele contexto específico e prejudicial.
O que se perde quando essa rede desaparece?
Quando uma mulher perde contato com a própria comunidade de origem, seja por isolamento imposto deliberadamente pelo parceiro, seja por mudança de cidade ou de rotina diária, ela perde também esse amortecedor psíquico importante, ficando mais exposta ao impacto direto de cada dificuldade que surge no caminho.
Para Taiza Tosatt Eleoterio, reconstruir esse senso de pertencimento é, portanto, parte essencial e indispensável de qualquer processo de recuperação, e não um complemento opcional que pode ser deixado para depois da resolução dos problemas mais urgentes e imediatos.
