Em setembro de 2003, quando Eloizo Gomes Afonso Duraes ofereceu as primeiras aulas de informática a crianças do bairro do Jaguaré, em São Paulo, o Brasil ainda vivia os primeiros anos de expansão da internet doméstica. Para a maioria das famílias de baixa renda, um computador era um objeto distante e improvável. Mais de duas décadas depois, o cenário mudou radicalmente: smartphones e conectividade estão muito mais disseminados, mas a desigualdade no acesso a competências digitais estruturadas permanece como uma das formas mais invisíveis e mais impactantes de exclusão social.
O que mudou e o que permanece?
A popularização dos dispositivos móveis criou uma ilusão de inclusão digital que merece ser questionada. Ter acesso a um smartphone e saber usar redes sociais não equivale a ter as competências digitais que o mercado de trabalho formal exige. Saber elaborar um documento no Word, organizar dados em uma planilha, montar uma apresentação, usar e-mail profissionalmente e navegar com segurança e criticidade na internet são habilidades que separam quem pode competir por posições formais de trabalho de quem está confinado a ocupações informais e de menor remuneração.
Eloizio Gomes Afonso Duraes estruturou o curso de informática da Fundação Gentil Afonso Duraes exatamente para desenvolver essas competências práticas. O currículo cobre desde programas de apoio à alfabetização até digitação, pacote Office completo, sistemas operacionais e navegação segura na internet. É um programa desenhado para a realidade do mercado de trabalho, não para uma ideia abstrata de letramento digital.

O momento em que tudo muda
Para uma criança que nunca havia tocado em um computador, a primeira aula representa muito mais do que o aprendizado de uma ferramenta. Representa a descoberta de que o mundo digital, que parecia pertencer a outras pessoas em outros contextos, também pode ser seu território. Essa percepção tem um impacto sobre a autoestima e sobre a visão de futuro que nenhuma estatística consegue capturar adequadamente.
Eloizo Gomes Afonso Duraes sempre compreendeu essa dimensão simbólica do programa. Ensinar informática para crianças vulneráveis não é apenas uma preparação para o mercado de trabalho, embora também seja isso. É uma afirmação de que essas crianças pertencem ao mundo contemporâneo, que têm direito às suas ferramentas e que são capazes de dominá-las com o suporte adequado.
Duas décadas de inclusão digital antes que o tema virasse pauta
Um aspecto que merece destaque na trajetória de Eloizio Gomes Afonso Duraes é o pioneirismo temporal. Quando ele iniciou as aulas de informática no Jaguaré em 2003, inclusão digital ainda não era uma pauta consolidada nas políticas públicas brasileiras. O conceito ganharia visibilidade nos anos seguintes, mas a Fundação Gentil já estava na prática, ensinando computadores para crianças de periferia muito antes de o tema se tornar politicamente relevante.
Esse pioneirismo não foi buscado por razões de visibilidade. Foi consequência natural de uma leitura antecipada de para onde o mundo estava indo e de uma decisão de garantir que as crianças mais vulneráveis não ficassem para trás nessa transição.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
